A substituição do termo “trabalhador” ou “empregado” por “colaborador” é uma mudança impulsionada principalmente pelas transformações na cultura organizacional e na gestão de Recursos Humanos (RH), que se intensificaram a partir do final do século XX com a ascensão do modelo neoliberal.
Essa mudança de vocabulário tem motivações complexas, que podem ser vistas tanto sob uma luz de valorização quanto de ideologia.
Motivações da Mudança de Termo.
O uso de “colaborador” visa criar uma percepção sobre a relação de trabalho, distanciando-se da visão tradicional e hierárquica.
1. Suavização da Hierarquia e Subordinação
Os termos “empregado” e “trabalhador” carregam historicamente a conotação de subordinação e relação vertical (chefe/subordinado).
* “Empregado”: Sugere alguém que é usado ou utilizado para um fim, com menor grau de autonomia.
* “Colaborador”: Etimologicamente, sugere cooperação e trabalho lado a lado (colaborar), implicando uma relação mais horizontal e de parceria. O objetivo é suavizar a hierarquia e mitigar a percepção de exploração.
2. Aumento do Engajamento e Sentimento de Pertencimento
A área de RH passou a buscar estratégias para aumentar o engajamento e a motivação intrínseca das pessoas.
* Chamar a pessoa de “colaborador” é um esforço para fazê-la sentir-se mais importante, valorizada e parte essencial do sucesso da empresa, e não apenas uma “peça na engrenagem”.
* O termo implica que o indivíduo deve ir além da tarefa básica e ativamente contribuir para os objetivos maiores da organização.
3. Alinhamento com a Cultura Neoliberal e de Meritocracia
Críticos argumentam que o termo é um eufemismo corporativo que serve a propósitos ideológicos e políticos, especialmente após o fortalecimento do modelo neoliberal.
Quando alguém te chamar de “COLABORADOR” saiba o porquê.
* Apagamento da Identidade de Classe: A palavra “trabalhador” está historicamente ligada à identidade de classe e à luta por direitos. A substituição pelo termo “colaborador” (ou até “parceiro”) busca esmaecer o antagonismo entre capital e trabalho, dificultando a construção da luta coletiva.
* Falsa Sensação de Igualdade: O termo pode criar a falsa ideia de que todos são sócios informais ou parceiros no mesmo nível, desvirtuando a realidade da subordinação legal e da distribuição desigual de riqueza.
Em suma, a mudança para “colaborador” reflete o desejo de modernizar a linguagem corporativa e fomentar uma cultura de cooperação e engajamento, mas é frequentemente analisada como uma forma de alienação linguística que tenta suavizar a realidade da relação de subordinação.
Para uma análise sociológica e crítica sobre essa mudança de vocabulário, confira este vídeo:
Colaborador ou TRABALHADOR?.
Fonte: Paulo Lindesay, diretor da Executiva Nacional da ASSIBGE-SN, coordenador do Núcleo Sindical Canabarro e coordenador da Auditoria Cidadã da Dívida Núcleo RJ.



