“A questão não é se R$ 220 milhões são suficientes para construir um data center, mas se as decisões orçamentárias da Dataprev priorizam a soberania digital do Brasil”, diz presidente do Fórum para Tecnologia Estratégica dos BRICS+  

A análise é de Isabela Wagnerovna Rocha-Dashicheva, presidente fundadora do Fórum para Tecnologia Estratégica dos BRICS+, pesquisadora em Soberania Tecnológica, Defesa Cognitiva e Ciências Sociais Computacionais, entrevistada no último capítulo da série Rodrigo Contradição.

Isabela é mestre e doutoranda em Ciência Política pelo Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília (IPOL UnB), onde também coordena o Grupo de Trabalho Estratégia, Dados e Soberania do Grupo de Estudos e Pesquisas em Segurança Internacional do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (GEPSI IREL UnB).

O Custo do Desperdício x Investimento Real e o Potencial Desperdiçado em Botafogo

SINDPD-DF: Com um orçamento de R$ 220,3 milhões, somado a outros gastos eventuais com o espaço locado, como você investiria esses valores para a construção de infraestrutura tecnológica para uma empresa como a Dataprev? Seria possível construir data centers ou adquirir clusters de GPUs para ajudar no desenvolvimento de uma IA estatal brasileira, por exemplo?

Isabela: Esse valor universal chega bem perto do custo de um único data center de alto-rendimento, o que poderia suprir parte das demandas computacionais de uma empresa do escopo da Dataprev. A questão aqui não é se esse valor agora é suficiente para construir um data center – e sim, se as decisões orçamentárias da Dataprev fazem sentido. Se não há uma priorização em gastos de modernização de hardware, como GPUs, energia, ou até mesmo data centers completos, e, claro, de software, nominalmente ambientes operacionais e de produtividade próprios, nuvem soberana e stack de virtualização e interoperabilidade. Todas essas demandas precisam ser desenvolvidas localmente para que os sistemas computacionais que mediam a Dataprev sejam soberanos de verdade.

Desenvolver essas capacidades, e, principalmente, capacitar os trabalhadores da Dataprev para operarem essas infraestruturas – isso é o mais importante. Principalmente para que um setor tão crítico, que processa a folha de pagamento de milhões de brasileiros, seja realmente soberano, e, acima de tudo, seguro.

E sobre a pauta de uma IA Brasileira – já passou da hora. No Piauí, a gente tem, por exemplo, a SoberanIA. Um modelo amplo, de uma IA completamente brasileira, ou seja, com hardware inteiro brasileiro, software brasileiro, treinada por dados oriundos da cognição brasileira, e, finalmente, regido por uma Governança brasileira, faria toda a diferença na administração pública, e transformaria o Brasil de cliente de Big Tech para produtor de tecnologia própria e protagonista da transformação digital no mundo.

SINDPD-DF: Sob a ótica da eficiência pública e da soberania digital, faz sentido financeiro e estratégico que uma estatal de tecnologia invista quase um quarto de bilhão de reais no aluguel de escritórios comerciais em vez de direcionar esse recurso para expandir suas capacidades tecnológicas e de processamento — especialmente considerando a viabilidade técnica de modernizar suas instalações ou construir um novo data center na estrutura própria de mais de 22 mil m² que a Dataprev possui em Botafogo? 

Isabela: Só faz sentido gastar com despesas prediais se isso vem de uma necessidade de adequar as demandas computacionais e de pessoal qualificado a um espaço físico. Mas isso só vem depois do investimento pesado em hardware e software. Antes de pensar em aluguel de escritório ou construir mais um data center, tem que pensar em desenvolver mais essas capacidades tecnológicas. Eu acho que no momento atual, isso não deveria ser muito a prioridade.

O que poderia ser feito é uma modernização no espaço, ampliando a infraestrutura desde que considerasse capacidade e redundância do fornecimento elétrico, resistência estrutural dos pavimentos, sistemas de refrigeração – incluindo refrigeração líquida -, proteção contra incêndios, disponibilidade de rotas redundantes de fibra óptica, restrição de ruídos, emissões, e mais importante, isolamento físico entre o data center e as áreas administrativas. Eu acredito que seria possível, mas é preciso envolver os engenheiros e técnicos especializados para debater sobre o assunto.

Riscos operacionais, vazamento de dados e possíveis falhas de segurança

SINDPD-DF: A Dataprev opera bases de dados críticas que guardam a vida financeira, de saúde, previdenciária e social de quase toda a população brasileira. Sob a ótica da Segurança da Informação, quais são os riscos de vulnerabilidade física, espionagem industrial ou táticas de engenharia social quando uma estatal desse porte deixa um prédio exclusivo e passa a operar em um condomínio comercial compartilhado com dezenas de outras empresas?

Isabela: Perigo, perigo, perigo! Uma mudança dessa natureza amplia consideravelmente a superfície de risco da Dataprev. A gente costuma imaginar ataques cibernéticos acontecendo, por exemplo, por um hacker digitando de maneira desenfreada em uma sala escura, mas na verdade, um ataque virtual bem sucedido vem de uma engenharia social bem feita. Por exemplo, alguém pode se passar por técnico de manutenção, fotografar um crachá no elevador, observar uma senha sendo digitada, conectar um dispositivo malicioso ou usar informações ouvidas nas áreas comuns para criar um e-mail fraudulento perfeitamente convincente. E esses são só alguns exemplos menos criativos. Em um condomínio compartilhado, pequenos erros humanos podem abrir grandes brechas.

Descentralização, Impacto Social, Desenvolvimento Econômico e Parcerias Estratégicas para um Projeto Nacional de Desenvolvimento

SINDPD-DF: Qual é o risco de se manter a infraestrutura de processamento de dados do Estado concentrada no eixo Rio, São Paulo e Brasília? A descentralização de data centers para outras regiões como o Norte ou o Nordeste é uma tendência técnica para garantir maior resiliência contra ataques cibernéticos, desastres climáticos ou outros fatores de risco de continuidade e segurança?

Isabela: A questão da redundância é central. Em termos simples, redundância significa criar caminhos, equipamentos e centros de processamento alternativos para que o sistema continue funcionando quando uma de suas partes falhar. Se Brasília ficar indisponível, por exemplo, outra unidade deve conseguir assumir seus serviços sem perda significativa de dados ou interrupção prolongada.

SINDPD-DF: No cenário atual, faz sentido que as estatais de TI atuem de forma isolada, ou seria tecnicamente e economicamente mais viável que a Dataprev operasse data centers em infraestrutura verdadeiramente soberanas compartilhada com outras esferas públicas, universidades e empresas genuinamente brasileiras — e qual é o impacto real desse investimento, ao ser levado para fora do eixo Rio-SP, no fortalecimento da economia local, geração de empregos qualificados e fixação de pólos tecnológicos pelo país?

Isabela: Na teoria das redes, uma estrutura baseada em uma única linha pode parecer muito resistente, mas continua dependente dos mesmos pontos de passagem. Basta romper um ponto crítico para interromper todo o fluxo. Uma rede distribuída possui vários nós e caminhos alternativos: se um enlace, equipamento ou datacenter cair, a informação pode seguir por outra rota.

A descentralização para o Norte e o Nordeste poderia fortalecer essa arquitetura, desde que os novos data centers tivessem fontes de energia, telecomunicações, equipes e rotas de conectividade suficientemente independentes. A redundância precisa ser funcional: cada unidade deve possuir os dados, os sistemas e a capacidade computacional necessários para assumir operações críticas quando outro nó sair do ar. O objetivo é eliminar pontos únicos de falha e permitir que o Estado continue operando mesmo quando parte da infraestrutura estiver comprometida.

E aqui, a possibilidade de desenvolvermos essa redundância em parceria com outras empresas, e até mesmo universidades, seria maravilhoso, não apenas em termos de segurança de redes, mas também de capacitação de pessoas e geração de empregos. O que costuma acontecer, e isso é muito triste, é que o Brasil tem muito pessoal qualificado que acaba indo para fora do país buscar oportunidades. Mas nós temos tudo que precisa para suprir essa demanda aqui no país. Só falta vontade política.

SINDPD-DF: Atualmente, o Brasil discute a necessidade de autossuficiência em semicondutores e hardware. Na sua visão, empresas públicas de TI consolidadas, como o Serpro e a Dataprev, deveriam expandir sua atuação para além do desenvolvimento de sistemas e atuar diretamente na pesquisa, design ou mesmo articulação industrial para a fabricação de hardware nacional, chips e litografia? O que falta para darmos esse salto de complexidade econômica?

Isabela: Sim, já passou da hora. Pelo nosso Índice de Soberania Digital, a soberania depende da capacidade concreta de um país projetar, produzir, operar e governar as tecnologias que sustentam seus serviços essenciais. Se o Estado controla os sistemas, mas depende integralmente de chips, servidores, nuvens, ferramentas de virtualização e atualizações estrangeiras, essa soberania permanece incompleta.

Serpro e Dataprev deveriam participar desse salto, embora não precisem transformar-se, sozinhos, em fabricantes de semicondutores. Elas podem funcionar como articuladoras industriais, laboratórios tecnológicos e compradoras estratégicas. São empresas capazes de definir demandas públicas de longo prazo, encomendar hardware nacional, testar arquiteturas, formar profissionais e garantir mercado para soluções desenvolvidas no Brasil. A fabricação pode ser conduzida em parceria com a CEITEC, universidades, institutos de pesquisa, Forças Armadas, empresas privadas e outras estruturas do Estado.

O Brasil tem tudo para fazer isso acontecer. Temos escala de mercado, energia, minerais estratégicos, universidades, capacidade científica, empresas públicas consolidadas, experiência em setores industriais complexos e uma base própria de semicondutores na CEITEC, cuja infraestrutura permite desenvolver e fabricar chips em tecnologias maduras. Temos também instrumentos de financiamento, compras públicas e política industrial. O que falta é a decisão política.

Não precisamos começar tentando disputar imediatamente os chips mais avançados do mundo. Podemos avançar em áreas nas quais há demanda nacional estável e importância estratégica: semicondutores de potência, sensores, chips para identificação, equipamentos de telecomunicações, infraestrutura energética, sistemas automotivos, satélites, defesa e servidores governamentais.

SINDPD-DF: Com o aprofundamento das políticas neoliberais, o Estado brasileiro passou a atuar praticamente como um “revendedor” de Big Techs como Microsoft, Oracle, AWS, Google e Huawei. Como o Brasil pode construir alternativas públicas e privadas competitivas para que as nossas estatais de TI e empresas nacionais disputem o mercado interno e externo com essas corporações estrangeiras?

Isabela: Em algum momento, e eu não acredito que isso foi uma decisão e sim uma inércia, mas a gente se tornou cliente ao invés de desenvolvedor de soluções em tecnologia. E nisso, o Serpro e a Dataprev passaram a operar dentro de arquiteturas definidas por Big Techs, pagando licenças e contratando nuvens, bancos de dados e ferramentas de virtualização sobre as quais possuem pouca autonomia.

Pelo nosso Índice de Soberania Digital, esse problema atravessa diversas dimensões ao mesmo tempo: capacidade industrial, autonomia tecnológica, infraestrutura, governança e inserção internacional. Não basta armazenar os dados no Brasil se o hardware, o hipervisor, o banco de dados, a nuvem e os mecanismos de atualização continuam sob controle estrangeiro.

O primeiro passo seria utilizar o poder de compra do Estado para criar demanda previsível para tecnologias brasileiras. Serpro, Dataprev, bancos públicos, universidades e ministérios poderiam estabelecer metas graduais de conteúdo nacional, padrões abertos, interoperabilidade e transferência tecnológica. Contratos públicos deveriam financiar o desenvolvimento de capacidade permanente, em vez de renovar indefinidamente a dependência. Isso também foi algo que previmos no estudo que realizamos ano passado, em que mapeamos os gastos com a Big Tech em R$ 23 bilhões

Também precisamos construir uma stack soberana: hardware, sistemas operacionais, nuvem pública, virtualização, bancos de dados, identidade digital, inteligência artificial e ferramentas de produtividade. Isso pode ser feito por meio de consórcios entre estatais, universidades, cooperativas tecnológicas e empresas privadas brasileiras.

SINDPD-DF: Para encerrar, qual deve ser o papel central de estatais estratégicas como a Dataprev e o Serpro na engrenagem de um Projeto Nacional de Desenvolvimento? O desmonte de patrimônio próprio e seu sucateamento, além da desvalorização dos seus quadros técnicos e capital intelectual, afetam a capacidade do Estado de planejar o seu próprio futuro tecnológico a longo prazo?

Isabela: O Brasil tem mercado, profissionais, infraestrutura, experiência institucional e parceiros internacionais para fazer isso acontecer. O que falta é continuidade, financiamento e vontade política para aceitar que soberania custa dinheiro. Continuar pagando licenças e importando soluções também custa — e ainda transfere conhecimento, renda, dados e poder para fora do país.

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