Márcia Honda (Diretora de Políticas Sindicais no SINDPD-DF e Secretária de Tecnologia na FENADADOS)
A forma como a humanidade se relaciona com o tempo define o progresso de cada época. Na Pré-História, ao aprender a cultivar a terra e domesticar animais, deixamos de ser nômades. O domínio sobre os ciclos da natureza permitiu que o ser humano não vivesse apenas para a sobrevivência imediata, dedicando tempo para criar, registrar a vida e produzir arte. Na Idade Média, esse ritmo mudou: o tempo tornou-se sagrado, guiado pela fé e pelas estações do ano.
Com a Revolução Industrial, no entanto, o tempo foi transformado em mercadoria. A lógica de exploração máxima separou quem produz de quem lucra, sacrificando a saúde e a vida de quem está na base da pirâmide em prol do acúmulo das elites. Foi nesse cenário de exaustão que nasceram as organizações de trabalhadores. A luta histórica por uma divisão justa do tempo e dos frutos do trabalho é a mesma que ecoa em nossos dias.
No Brasil, após o longo e violento período da escravidão, o mundo do trabalho avançou com a chegada de imigrantes e a organização da classe trabalhadora, consolidando direitos trabalhistas. Recentemente, após anos de retrocessos e perdas de garantias, o movimento sindical ressurge com força. A pauta da vez é o fim da escala 6×1 e a redução da jornada semanal. Essa disputa por horas a menos é uma resposta urgente ao esgotamento mental e à invasão do tempo pessoal por cobranças constantes, buscando devolver o “bem viver” a indivíduos cujos limites biológicos têm sido ignorados pelo mercado.
Hoje, essa urgência ganha uma nova camada com a Inteligência Artificial e a robotização. Se não houver vigilância, essas tecnologias servirão apenas para aumentar a pressão, criar mecanismos de controle constante e extinguir postos de trabalho. A defesa necessária é que o aumento da produtividade gerado pelas máquinas não sirva para demitir ou assediar, mas para promover o progresso social. A automação deve ser o motor que financia a dignidade: se a tecnologia gera mais em menos tempo, esse ganho deve ser convertido em descanso e em tempo para o trabalhador se qualificar e conviver com os seus.
O sindicalismo moderno propõe, assim, uma nova visão para a inovação. Em vez de causar desemprego, a tecnologia deve estar a serviço dos direitos sociais. A riqueza produzida pela tecnologia precisa custear a diminuição da carga horária humana, permitindo que a eficiência das máquinas se transforme em qualidade de vida real. O Brasil avança ao debater o fim da escala 6×1, sinalizando que o progresso técnico só faz sentido se trouxer liberdade para quem trabalha e respeito ao tempo como um patrimônio da dignidade humana.
A relação com o tempo é social e política. Reorganizar o tempo é, no limite, reorganizar a própria sociedade. O movimento sindical, composto hoje por uma classe trabalhadora diversa — da tecnologia aos serviços —, precisa ler esses novos cenários e se reinventar. Só assim continuaremos conduzindo a travessia rumo a um futuro onde o trabalho não consuma a vida, mas ajude a construí-la.
Juntos Somos Fortes.
O Sindicato terá a força e o tamanho que a categoria quiser.



